Marcenaria 4.0: Entenda as aplicações e vantagens do conceito Nesting

MARCENARIA 4.0: DESMISTIFICANDO O NESTING

O processo de fabricação dentro de uma marcenaria que trabalha, em sua grande maioria, com a chapa de madeira reconstituída (MDP e MDF) e revestida de superfícies do tipo BP (Baixa Pressão) ou FF (Finish Foil), começa basicamente com o corte da chapa mãe, para a obtenção de painéis ou peças como queiram chamar. Em uma abordagem estritamente tecnológica, o processo de corte acontece de 4 maneiras distintas em termos da configuração dos seguintes equipamentos:

  • Serra Circular
  • Esquadrejadeira
  • Seccionadora
  • Nesting

Corte em Serra Circular: Trata-se aqui do mais arcaico método de obtenção dos painéis, visto que tal equipamento possui apenas uma guia lateral e uma serra paralela à esta guia. Portanto falamos em “larguras” de corte, controladas pelo distanciamento manual entre guia e serra. O processo submete-se ao total domínio do operador, no caso o marceneiro. As peças são obtidas individualmente. A serra circular não possui por definição um apoio efetivo para a área da chapa, o que torna sua utilização para este fim na verdade um grande improviso e fisicamente fadigante. De maneira conclusiva e categórica, não é um equipamento indicado para o corte de chapas.

Corte em Esquadrejadeira: Este processo caracteriza-se pela existência de um aparato tanto produtivo quanto preciso quando comparado à serra circular. A mesa ou carro de transporte onde a chapa pode ser descansada de maneira efetiva. Diferente da serra circular, a esquadrejadeira consegue portanto reduzir o esforço físico do deslocamento horizontal das peças obtidas no corte da chapa. Além disso, a mesa garante também a questão da qualidade do acabamento no avanço da chapa, bem como a questão do esquadro obtido pela perpendicularidade entre carro, guia e serra, estes dois últimos paralelos como na serra circular. Importante salientar que as chapas são alimentadas individualmente como na serra circular. Contudo, sua produtividade é significativamente maior, além de contar com superioridade técnica de precisão de medida e esquadro. Este segundo atributo (o esquadro preciso)  sendo inclusive o responsável por sua nomenclatura como equipamento.

Corte em Seccionadora: Para este processo de corte, temos as maiores variantes possíveis no tocante à projeto de equipamento entre os 4 citados. O grande diferencial da seccionadora é que ela trabalha com uma “altura de corte variável”, o que permite processar simultaneamente diversas chapas em um mesmo avanço do material (as chapas). Quanto à tecnologia temos empurradores manuais ou automáticos, pinças móveis ou fixas, mesas elevatórias e de descarga além de diversos outros apetrechos embarcadas de acordo com a necessidade do cliente. Tais equipamentos conseguem trabalhar seguindo softwares de otimização de chapas e os recursos ou possibilidades merecem um capítulo à parte deste artigo. Contudo, a grande característica das seccionadores é a questão da produtividade do lote, ou seja, seguir um plano de corte que trate simultaneamente da geração de peças repetidas para produtos em série. Sua produtividade é incomparável dentro deste modelo de fabricação, o lote múltiplo. Não se pode afirmar o mesmo para marcenarias que trabalham o pedido individual em lotes unitários.

Corte em Nesting: Falamos agora da grande mudança tecnológica na gestão dos processos de fabricação da marcenaria moderna. Para tanto entendemos que o Nesting representa de fato a Marcenaria 4.0 em sua essência, desde que satisfaça uma única ressalva, A QUESTÃO DO LOTE UNITÁRIO.  Mas afinal de contas, “O Nesting é um Centro de Usinagem?” O equipamento traz para os marceneiros uma confusão em suas características, mas o conceito é simples. Trata-se de um Centro de Usinagem (CNC) que funciona como uma seccionadora em termos de processo. Estranho né? Mas basicamente é isso!

Vamos portanto falar inicialmente das desvantagens do uso de um Nesting, para que você possa entender o que ele pode definitivamente representar para sua marcenaria, vilão ou herói:

  1. O nesting usa fresas para o corte, diferente de todos os demais processos citados que usam serras. Portanto, a perda de material pela ferramenta é bastante significativa, mesmo em diâmetros reduzidos. São basicamente 12 mm de linha de corte contra 4 mm dos demais processos em média. Portanto 200% mais de perda de material no corte. Porém em minha opinião, os diâmetros de corte ideias para as fresas devam usar 16 mm (melhor velocidade de avanço) e não 12 mm, o que aumenta ainda mais a perda de material (300%).
  2. O nesting corta apenas uma chapa por vez e exige uma base (a chapa de sacrifício) que possui uma vida útil média de uma semana para quem corta cerca de 40 a 50 chapas dia. Isto também é uma perda, embora pouco significativa.
  3. Este equipamento é lento quando comparado às velocidades de corte e volume de produção da seccionadora. Uma produção típica é o intervalo de 30 a 60 chapas de 1,85 x 2,75 por dia (turno), variando tal volume  em função da complexidade de projeto do mobiliário.
  4. O nesting via de regra (conceitualmente) não é capaz de executar furações de topo, o que acaba exigindo 2 paliativos recorrentes. Ou se altera o projeto de fixação (lamelo, vb, etc), ou se utiliza um centro de furação ao final do processo, o que obviamente se faz necessário também nos demais processos de corte. Então a aquisição deste equipamento precisa de um estudo aprofundado do funcionamento dinâmico da marcenaria.
  5. É possível adaptar o Nesting para trabalhar em peças individuais como um Centro de Usinagem padrão, porém isto não deve nunca ocupar o equipamento mais que 10% de sua disponibilidade diária. Diferente disto existe em andamento um enorme erro em termos de gestão produtiva. Como dito, o nesting conceitualmente processa chapas e não painéis.
  6. O valor de aquisição de um nesting é múltiplas vezes superior ao de serras circulares ou esquadrejadeiras. Quanto à seccionadora, costuma ser mais caro também. Mas isto depende muito do descritivo técnico da seccionadora, dado que sua gama de recursos varia desde as simples até seccionadoras de alta complexidade (significativamente mais caras que um nesting).

Observo marcenarias mal assessoradas neste assunto, porque não são capazes de entender qual o equipamento correto para seu modelo de negócios. Isto alia-se ao fato de que por razões históricas do uso, muitos vendedores de máquina ainda acreditam que a seccionadora é a escolha acertada para o marceneiro sob qualquer hipótese. Entretanto, trata-se de uma afirmativa extremamente perigosa, visto que na verdade depende de diversos fatores antes de justificável.  Tal decisão mal fundamentada pode conceber um grave erro de visão, comprometendo o resultado operacional da marcenaria e potencializando o fracasso de sua gestão tecnológica.

Desta forma chegamos ao climax deste apaixonante embate. O que o Nesting pode fazer por sua marcenaria? Vai te transformar em uma marcenaria 4.0? Vai resolver todos os seus problemas? Seguem as poderações positivas para sua tomada de decisão:

  1. Quem corre mais, a tartaruga ou o coelho? O nesting consegue imprimir um ritmo constante, independente do operador. Algumas seccionadoras com generosa eletrônica e automação também o fazem. (Verdade, mas neste momento nivelamos a questão do argumento do custo de aquisição).
  2. Também consigo fazer o lote unitário na seccionadora. Pois bem, já comparou o resultado produtivo destas situações? Garanto que o lote unitário é mais rápido no Nesting, simplesmente pela abstração do projeto.
  3. Em relação ao item 2, o processo é transparente para o nesting, o produto simplesmente flui do projeto para a máquina, não precisa de interpretação e movimentação de tiras, apenas acompanhamento da usinagem, liberando o operador para outras atividades simultâneas.
  4. O nesting faz cortes curvos, isto é um poderoso diferencial de projeto que precisa ser implementado como vantagem competitiva e potencialização do design criativo.
  5. As medidas de corte são sempre exatas. Não é necessário esquadrejar ou perfilar o painel “a posteriori” do nesting.
  6. As peças podem ser etiquetadas individualmente, diferente da seccionadora quando corta mais que uma chapa simultaneamente.
  7. A carga e descarga do nesting pode ser automatizada assim como o caso da seccionadora, porém as mesas do nesting tem custo menor que as das seccionadoras capazes de gerenciar a mesma complexidade
  8. O nesting tem um layout de corte mais flexível, dado que a fresa pode subir e descer sem uma linha de continuidade obrigatória como na serra, isto tende a possibilitar planos de corte com menor geração de sobras para futura administração. Além disso, as sobras de corte podem ser geridas dentro do processamento da chapa, diferente das seccionadoras, onde tal operação de recorte inviabiliza a produtividade do equipamento.
  9. O pedido flui de maneira uniforme visto que o nesting combina o layout de corte de maneira mais eficiente.
  10. Você pode privilegiar um bom projetista ante um bom operador ou marceneiro. Talvez no fundo essa seja a grande negação ao nesting no presente momento, a questão conceitual da luta política pela relevância profissional dentro da organização.
  11. Ainda sobre a face da chapa, existe a possibilidade da execução de diversificadas tarefas simultâneas ao corte. Execução de canais, rebaixos, furos, rasgos etc, economizando tempo de carga, descarga e processamento em outros equipamentos posteriores tais como furadeiras, tupias e serras circulares.

Podemos categoricamente destacar que o nesting é capaz de abrir as portas de sua marcenaria para uma nova realidade em termos de gestão de pedidos ou de design. Tudo isto de uma maneira transparente, totalmente integrada ao projeto. Respondendo a questão se o nesting te transforma em uma marcenaria 4.0, “Não!” Porém ele efetivamente oferece a possibilidade da gestão integrada de Pedido x Projeto x Fabricação dentro de sua marcenaria. Cabe portanto ao empresário entender como tudo isso se conecta, porque daí sim o resultado obtido é o que chamamos de MARCENARIA 4.0

O Nesting em Ação: Show Room Biesse em Pesaro (Itália - Out/2018)

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